[Filme] Bastardos Inglórios

23 de Dezembro de 2013
[Filme] Bastardos Inglórios

Bastardos Inglórios

Sinopse Bastardos Inglórios

Durante a Segunda Guerra Mundial, na França ocupada pelo exército alemão, a jovem Shosanna Dreyfus testemunha a execução de toda a sua família pelas mãos do coronel nazista Hans Landa. A moça escapa e viaja para Paris, com a forjada identidade de dona e operadora de um cinema.

Ainda na Europa, o tenente Aldo Raine organiza um grupo de soldados judeus para lutar contra os nazistas. Conhecido pelo inimigo como The Basterds, o grupo de Aldo acaba tendo como nova integrante a atriz alemã e espiã disfarçada Bridget Von Hammersmark, que tem a perigosa missão de derrubar os líderes do Terceiro Reich.

Ficha técnica Bastardos Inglórios

Título Original: Inglorious Basterds.
Origem: Estados Unidos / Alemanha / França, 2009.
Direção: Quentin Tarantino.
Roteiro: Quentin Tarantino.
Produção: Lawrence Bender.
Fotografia: Robert Richardson.
Edição: Sally Menke.
Música: -.

Premiações Bastardos Inglórios

Oscar: Oscar de Melhor Ator Coadjuvante (Christoph Waltz). Indicado ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Som e Melhor Edição de Som.
Globo de Ouro: Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante (Christoph Waltz). Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama, Melhor Diretor e Melhor Roteiro.
BAFTA: BAFTA de Melhor Ator Coadjuvante (Christoph Waltz). Indicado ao BAFTA de Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Edição e Melhor Design de Produção.

Trailer Bastardos Inglórios

Crítica Bastardos Inglórios

Que Quentin Tarantino é um dos melhores diretores de sua geração é um fato inegável. Seu talento para compor cenas e apresentar planos simples de maneira criativa e, sempre que possível recheado de referências aos seus filmes preferidos, por si só já demonstram um conhecimento acima da média e o colocam como referência no quesito direção. Porém é na elaboração de roteiros que reside o maior dos talentos de Tarantino.

Como poucos, Quentin Tarantino sabe construir diálogos. Diálogos tão ricos e, ao mesmo tempo, tão verossímeis, que mesmo longos ou aparentemente desconexos do tema geral do filme, temos a sensação de nos tornarmos mais que espectadores, mas sim um elemento da conversa tomando parte na mesa com os protagonistas. É claro que, nem sempre, eles são perfeitos. Em alguns momentos temos a sensação que algo está se arrastando, se tornando cansativo e fosse um outro diretor qualquer muitos desses planos seriam cortados na edição para que coubessem em menos de duas horas de filme.

Bastardos Inglórios é estruturado em cinco capítulos. Tarantino precisa apenas do primeiro deles para tirar o fôlego do espectador. Estamos no interior da França recém ocupada pelo exército nazista. Planos abertos e uma trilha sonora inspirada em clássicos do western criam um clima que nos faz pensar que estamos diante de um filme do gênero. Numa humilde casa de campo Pierre LaPadite (Denis Menochet) vive pacificamente com suas três filhas. Até receber a visita de um certo coronel Hans Landa (Christoph Waltz), conhecido como “caçador de judeus”. O diálogo entre ambos é longo, tomando mais de dez minutos. Porém a parcimônia com que é apresentado e a maneira imprevisível como a cena é desenvolvida, por si só, já valem o ingresso.

Se em Cães de Aluguel Tarantino tornou clássica uma discussão de mesa de bar sobre gorjetas e em Pulp Fiction: Tempo de Violência o diálogo em que Jules e Vincent falam sobre como é chamado o sanduíche “quarteirão com queijo” na França, aqui o diretor utiliza uma alusão brilhante ao comparar o ódio que humanos sentem por ratos, e que curiosamente não sentem por esquilos, para apresentar – sob o ponto de vista nazista – seu possível desprezo pelos judeus e não por povos de outras raças. À medida que as palavras saem da boca de Landa a tensão cresce e, toda ela, reside apenas no diálogo. Não há um recurso fácil sequer para supervalorizar a cena. Ela soa de maneira natural e a fluidez da condução dos personagens é exemplar.

Com uma trama bem amarrada da a primeira a última cena, Tarantino cumpre a sua parte na produção e abre espaço para o que invariavelmente acontece em seus filmes: os atores se destacam e encontram nos ótimos diálogos do roteiro um palco para brilhar. E o brilho maior na produção fica por conta de Christoph Waltz. A composição de personagem que ele faz, indo da tranqüilidade à exasperação em questão de segundos e conduzindo alguns dos melhores diálogos da produção com maestria é simplesmente brilhante. Na guerra de Tarantino, sua participação é decisiva e, por sua imprevisibilidade, torna-se ainda mais marcante.

A habitual visão de Quentin Tarantino, marcada pela sua estética da violência, com litros de sangue banhando a tela enquanto algum personagem demonstra um sorriso no canto do rosto é mantida, mas de uma forma diferente. A subversão às expectativas da platéia é constante. Quando uma sequência está sendo conduzida para a violência, somos surpreendidos por uma fina ironia. Quando as risadas tomam conta da tela, algum momento ainda mais violento surge, nos trazendo de volta para a realidade que, apesar de tudo, aquilo tudo ainda é uma guerra.

Como não poderia ser diferente, a visão de guerra de Tarantino é muito mais estética do que histórica. Por isso, não espere fatos levados ao pé da letra ou soluções previsíveis. Em Bastardos Inglórios Adolph Hitler é um mero personagem do qual o diretor se aproveita e exacerba até onde pode seus traços mais conhecidos. Em seu “western de guerra” o final é apoteótico, violento e poético, apresentando um ideal que em uma guerra mesmo as vítimas podem ser tão cruéis quanto os seus agressores e que, de forma alguma, isso as transforma em bestas humanas como os mais terríveis e sádicos assassinos. Se no roteiro o diretor brinca a cada ponto de virada de subverter expectativas, em termos ideológicos Tarantino, sempre que possível, insere um ponto de reflexão para o espectador, embora deixe claro qual é o seu ponto de vista.

Seu preciosismo, porém, não está isento de imperfeições. Em Transformers: A Vingança dos Derrotados chamei a atenção para a má utilização da “câmera giratória” como forma de dar dinamismo e ação para uma cena em que os próprios atores, o contexto e a ocasião não eram suficientes e para criar uma clima apropriado que justificasse o recurso. Em Bastardos Inglórios, Tarantino também lança mão do fatídico efeito, na sequência onde Bridget Von Hammersmark (Diane Kruger) chega para a premiére do novo filme de Joseph Goebbels (Sylvester Groth) e conversa com o coronel Hans Landa. Diferente de Michael Bay, que utilizou o recurso para criar um clima onde não havia, Tarantino adota o recurso como forma de mostrar a sensação de confusão de Bridget. Em tese, a idéia é válida, mas na prática a sequência causa um certo desconforto e destoa das ótimas escolhas narrativas adotadas até então.

Com muito mais acertos do que erros, Bastardos Inglórios figura como mais um ótimo trabalho do diretor, em uma lista de produções de altíssimo nível acumuladas em pouco mais de uma década. E além da personalidade e estilo próprios já característicos do seu trabalho, Tarantino mostra que sempre há a possibilidade, de alguma forma, de proporcionar ao público algo diferente e que vá além das expectativas. Entretenimento inteligente e, com certeza, um dos melhores filmes de 2009.

Nota 9.