[Filme] Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro

24 de Novembro de 2013
[Filme] Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro

Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro

Sinopse Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro

Nascimento, agora coronel, foi afastado do BOPE por conta de uma mal sucedida operação. Desta forma, ele vai parar na inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Contudo, ele descobre que o sistema que tanto combate é mais podre do que imagina e que o buraco é bem mais embaixo. Seus problemas só aumentam, porque o filho Rafael tornou-se adolescente, Rosane não é mais sua esposa e seu arqui inimigo Fraga ocupa posição de destaque no seio de sua família.

Ficha técnica Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro

Título Original: Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro.
Origem: Brasil, 2010.
Direção: José Padilha.
Roteiro: Bráulio Mantovani e José Padilha.
Produção: Marcos Prado e José Padilha.
Fotografia: Lula Carvalho.
Edição: Daniel Rezende.
Música: Pedro Bromfman.

Trailer Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro

Crítica Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro

Assim como diversas correntes sociológicas afirma que o homem é um produto do seu meio, por muitos e muitos anos a sociedade tem debatido a respeito do papel do cinema de um determinado país sobre os seus espectadores. Seria a arte nada mais que um produto do meio, moldada de acordo com as características e particularidades de um povo ou pelo contrário, um meio de comunicação capaz de formar caráter e opinião e, por meio de sua mensagem, influenciar no cotidiano da população?

Nos últimos cinco anos a série Tropa de Elite é, sem dúvida, um dos maiores fenômenos culturais do país, encabeçando também a lista de produções com melhor nível de qualidade apresentado. Se no primeiro filme a produção em si dividiu as atenções com o vazamento das cópias que acabaram por tornar Tropa de Elite um fenômeno meses antes do lançamento nos cinemas, em Tropa de Elite 2 a vigilância quanto ao segundo item foi reforçada, deixando espaço única e exclusivamente para que o filme, que agora propõe uma visão mais ampla do problema, seguisse o seu caminho nas bilheterias.

E é justamente essa visão mais ampla do crime organizado que faz com que a produção supere a primeira sem que, para isso, precise recair em artifícios banais ou mais apelativos. Em Tropa de Elite 2 não se vê mais sangue do que no primeiro, nem mortes mais impactantes do que no filme de 2007. Tudo parece fluir de maneira natural, no mesmo compasso da trama proposta para essa segunda parte.

Dez anos se passaram e Nascimento, agora coronel, é “promovido” de comandante do BOPE para sub-secretário de inteligência. A função burocrática é encarada por ele como uma oportunidade única de destruir o tráfico de drogas e o crime organizado a partir de uma escala ainda maior. O que ele não percebe é que ao destruir uma das engrenagens do sistema acaba gerando uma lacuna preenchida rapidamente pelas milícias, que se tornam tão nocivas quanto o tráfico e envolvem uma série de políticos e figuras do alto escalão.

Mais do que apresentar um denuncismo barato ou colocar em lados opostos favelados e socialmente excluídos contra a polícia e a sociedade, Tropa de Elite 2 traça um organograma claro de como funciona todo um esquema que se sustenta graças ao descaso da mídia e a cumplicidade de policiais corruptos e políticos que utilizam o medo e a violência com o propósito único de arrecadar dinheiro e pensar nas eleições de quatro em quatro anos.

Dois grandes méritos devem ser destacados aqui. O primeiro deles é a figura icônica de Nascimento (Wagner Moura). Tido como um paladino da justiça no primeiro filme, mas claramente desequilibrado emocionalmente, aqui ele se apresenta mais maduro e consciente do seu papel diante da corrupção. A maneira como conduz as ações, mesmo quando erra ou acaba por se tornar vítima das próprias ações é relevada pelo público muito mais pelo fato do que o seu personagem representa.

Quando diante de uma tribuna repleta de políticos Nascimento afirma com todas as letras que “a polícia do Rio de Janeiro precisa acabar” e aponta para cada um dos governantes mostrando quem são os verdadeiros bandidos é como se o público projetasse nele toda uma série de escândalos e atos corruptos propagados diariamente na mídia. Mesmo em uma sequência onde Nascimento agride fisicamente um secretário, ainda assim satisfaz o desejo do público que anseia por uma mudança, ainda que não parta de cada um dos espectadores a ação transformadora. Assim, Nascimento ressurge como uma espécie de super-herói moderno em que os seus maiores poderes são o caráter e a capacidade de agir e buscar a mudança.

Outro ponto fundamental se deve a um nome: Bráulio Mantovani. O roteirista de Tropa de Elite 2 talvez seja um dos responsáveis pela melhor transformação que o cinema brasileiro poderia encontrar ao longo dessa década. Sua capacidade não só de contar uma boa história, com arcos claros e concisos, mas também de produzir diálogos tão verossímeis quanto o cotidiano de qualquer cidadão colabora em muito para o sucesso do filme.

Não é por acaso que diversos bordões lançados em 2007 continuam vivos na memória do espectador. No filme de 2010 não é diferente e o roteiro abusa de tiradas como “ta se achando o pica das galáxias” ou “quer me foder me beija”. Trata-se de um coloquialismo que se encaixa com tamanha naturalidade em cada um dos personagens que é difícil imaginar qualquer um deles sendo mais formal. Essa característica de Mantovani, presente em toda a sua filmografia, faz com que o espectador de imediato se coloque na situação apresentada, trazendo-o para dentro do filme e gerando uma empatia direta com o contexto apresentado.

Mais do que despertar no espectador um sentimento genuíno de revolta perante a podridão do sistema político e social, Padilha conduz uma ótima trama por intermédio do seu super-herói, acertadamente apostando muito mais no conteúdo do que na estética da violência, que se faz presente, mas está longe de ser o personagem principal. Em um ano eleitoral em que um filme mediano como Lula – O Filho do Brasil foi o escolhido para representar o cinema brasileiro no Oscar, é uma afronta que uma produção como Tropa de Elite 2 fique relegada a segundo plano, em especial no panorama internacional.

Para aquele brasileiro que realmente se sente incomodado com a situação de desmando e corrupção em nosso país, Tropa de Elite 2 é o estopim para que o grito preso na garganta seja solto em alto em bom som. Porém, a julgar pelo resultado das últimas eleições, com bandidos como Jader Barbalho, Paulo Maluf e José Sarney sendo perpetuamente reeleitos e chancelados por parcela significativa da população, ao que parece mesmo com a excelente bilheteria e todo o sucesso alcançado, o brado reverberado pelo filme atingirá apenas alguns poucos ouvidos que não se fazem de surdos e têm caráter suficiente para se indignar e seguir clamando por mudança.

Nota 10