
O que motivou a volta ao cinema depois de um afastamento de quase 20 anos?
Quando comecei a escrever o roteiro, de 2006 para 2007, eu estava há 17 anos sem filmar. O cinema brasileiro acabou em 90, ficou tudo um caos, eu tinha família para sustentar e fui trabalhar como jornalista. Adorei fazer jornal e TV, mas nos últimos anos, passei a sentir saudades de cinema. Só escrever e falar de política no Brasil envenena a alma, você tem que prestar tanta atenção no erro que comecei a sentir saudade da arte, do mistério da arte . Então decidi voltar a filmar apenas pelo prazer poético de fazer.
Qual o ponto de partida de A Suprema Felicidade?
Experiências que eu tive, coisas que vivi, lembranças da infância, da adolescência, da família – pai, mãe, avô, avó – e do Rio de Janeiro de 40, 50 anos atrás. Mas não fiz um filme autobiográfico, a imaginação altera muita coisa, e não acredito em filme objetivo, apenas sobre uma realidade. Como dizia o Fellini, a única objetividade que ele conhece é a subjetividade. Fiz o que os alemães chamam de bildungsroman e os americanos de coming of age – um filme sobre a formação de um jovem e o mundo à sua volta. O filme acompanha a trajetória de Paulo, dos 8 aos 18, 19 anos – seus conflitos familiares, amizades, a primeira namorada, a iniciação sexual, a busca do amor.
O que provocou a escolha deste tema, tão distante de seus filmes anteriores?
Pois é, esta foi uma questão. Falar de quê? De chavões? Do fim das utopias, da miséria universal, da justiça injusta, do futuro incerto? Era fácil fazer filme de esquerda, a favor da revolução, em nome do povo. Não temos mais utopia, os indivíduos viraram extensões das coisas, ao contrário do que pregava McLuhan, mas a arte precisa de esperança. Vejo esperança nos afetos, nas emoções, na compaixão, na sexualidade. Mas em boa parte da produção contemporânea, o espectador é quase personagem de um videogame que é o filme e que lhe diz o quê e como deve se sentir.
De tanta informação, as pessoas estão ficando cegas, e já que ninguém tem mais clareza sobre nada, decidi falar sobre uma coisa sobre a qual tenho certeza e conheço: o mundo da minha infância e da minha juventude. O filme tem um tempo, os personagens têm um tempo e o espectador também tem um tempo. A Suprema Felicidade busca uma identificação com o espectador – se conseguir isso, já fico feliz.
E como esse mundo está retratado no filme?
O filme apresenta uma divisão muito forte entre casa e rua. Em casa, Paulo vive com os pais em crise, deprimidos, mas seu avô, um músico boêmio tocador de trombone, o leva para a liberdade das ruas. A classe média do Rio de Janeiro do pós-guerra começa a viver sua grande transição, e as famílias eram ambivalentes. Como diz Sofia, mãe de Paulo, ‘todo mundo fala de felicidade mas ninguém é feliz”. Os pais de Paulo se amavam, mas não conseguiram ser felizes. O pai, com o sonho de pilotar jatos, temia a alegria da mãe, que por sua vez tinha saudade não sabia exatamente de quê.
Talvez da felicidade que poderia ter tido. Paulo cresce neste ambiente, é educado em uma escola jesuíta, e na juventude freqüenta a boemia, os bordéis, os cabarés da época. O filme começa em 1945, dá um salto para meados dos anos 50 e termina em 58, 59, que marca o início de uma nova era de comportamentos, de liberação, o início da bossa nova.
E qual o gênero que você escolheu para relatar essa trajetória do Paulo dos 8 aos 18 anos em um Rio de Janeiro que passava por tantas transformações?
Esse filme não tem um gênero, mas vários: tem momentos dramáticos, alegres, cômicos, trágicos. Alterna amor com desespero, delicadeza com crueza, alegria com tragédia. Esta alternância permanente foi pensada desde o argumento e desenvolvida no roteiro, junto com Ananda Rubinstein. A exemplo de Fellini em Roma, em Amarcord, as cenas têm um valor em si – nenhuma cena foi feita para introduzir outra. Cada cena tem seu desdobramento e seu clima e onde nada é gratuito: ela se fecha em si mesma, no seu glamour, no seu charme, na sua dramaticidade, no seu humor. Quis construir uma história através do entrelaçamento de 40, 50 cenas que se sucedem quase como se fossem uma exposição de quadros, de forma não-linear como a vida, que alterna drama, humor, tragédia, lirismo, associações de idéias.
Como você vê a iniciação sexual e afetiva do Paulo, que sai da repressão da casa e da escola jesuíta para zonas de prostituição, bordéis? Hoje ele dormiria com a namorada em casa (dele ou dela) e com a aprovação dos pais.
Eu – e o Paulo do filme – somos do tempo em que as namoradas não davam. Hoje o sexo é muito banalizado a partir dos 15 anos, e vive-se situações impensáveis naquela época. Mas é justamente esse impensável que deu ao Paulo um sentido muito grande de busca. Para ele, sexo e amor se misturavam e ele estava sempre atrás de alguém para amar – podia ser a Deise, a prostituta do Mangue, a Marilyn. Realmente, ocorreu uma mudança brutal. Talvez as pessoas estejam se divertindo mais, mas não sei se elas são mais felizes.